O petróleo como lubrificante cósmico da geopolítica em Negarestani

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Gerações de ativistas e analistas internacionais resumiram as guerras no Oriente Médio ao lema “não há sangue por petróleo”, tratando os conflitos armados como a apropriação predatória de uma mercadoria passiva por impérios industriais. Essa fórmula, contudo, repousa sobre uma premissa ingênua: a de que o hidrocarboneto é apenas um recurso inerte à espera de utilidade humana. Para que uma substância bruta justifique décadas de carnificina e reconfigure fronteiras inteiras, ela precisa operar como algo infinitamente mais corrosivo e ativo do que uma commodity comum de mercado.

Essa provocação teórica foi examinada por John Hagele e Sam Chirtal no podcast The Infinite Library, em debate sobre Cyclonopedia: Complicity with Anonymous Materials, obra de intervenção filosófica e ficção teórica do pensador iraniano Reza Negarestani. Na interpretação dos debatedores, o livro propõe uma virada radical ao conceder ao petróleo uma espécie de senciência inumana: o óleo fóssil deixa de ser um mero combustível sob controle humano e passa a ser compreendido como o lubrificante universal da história, uma matéria subterrânea cujo papel real é engraxar as engrenagens da máquina militar, técnica e catastrófica do planeta.

Ao inverter o polo da causalidade, a perspectiva de Negarestani atinge diretamente a soberania da geopolítica tradicional. Se o petróleo molda a infraestrutura cultural, religiosa e militar das sociedades em escalas temporais que remontam à decomposição geológica da Terra, não são os impérios que dominam a energia fóssil para expandir seu poder. É o próprio petróleo que parasita a civilização industrial, utilizando as pulsões bélicas e tecnológicas da humanidade como condutos de escape para retornar à crosta terrestre em forma de cinza, asfalto e fogo.

Interlocuções

  • O materialismo maquínico em Gilles Deleuze e Félix Guattari: Em Mil Platôs, os autores teorizam os fluxos de matéria desterritorializada que alimentam a “máquina de guerra”. O petróleo atua como um fluxo geológico que desborda as fronteiras dos Estados e escapa à codificação soberana, impondo suas próprias linhas de fuga corrosivas.
  • O aceleracionismo e a teoria-ficção da CCRU (Cybernetic Culture Research Unit): As formulações de Negarestani dialogam diretamente com a linhagem de Nick Land nos anos 1990, para quem a modernidade técnica é impulsionada por uma força cega de invasão inumana. A queima do combustível fóssil representa a reconexão acelerada da biosfera com a entropia solar e a morte térmica.
  • Os hiperobjetos na ecologia escura de Timothy Morton: O petróleo constitui o exemplo canônico de hiperobjeto: uma entidade tão vasta e dispersa no tempo e no espaço que desfaz o dualismo entre sujeito observador e objeto manipulável, desafiando qualquer tentativa humana de enquadrá-lo como recurso local.
  • A matéria vibrante no novo materialismo de Jane Bennett: Ao defender que minerais, toxinas e substâncias químicas possuem agência e capacidade de agenciamento político próprio, Bennett converge com a crítica de Negarestani ao antropocentrismo, demonstrando que a política internacional sempre foi tecida pela ação de forças inorgânicas não humanas.

Referências