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A confiança espontânea naquilo que se apresenta aos sentidos repousa sobre uma das ilusões mais persistentes do senso comum: a crença de que a realidade se entrega de forma dócil e transparente sob a forma de fatos puros. A rotina diária e as certezas imediatas costumam tratar o mundo como um conjunto de substâncias prontas e acabadas, bastando abrir os olhos para apreendê-las. Para o pensamento científico rigoroso, contudo, essa evidência primária não é o ponto de partida seguro da verdade, mas o primeiro obstáculo a ser superado.
Essa advertência foi destacada pelo pesquisador Steven Connor, professor do King's College London, em conversa no podcast Hermitix sobre a biografia intelectual de Gaston Bachelard. Ao examinar a hostilidade inicial do filósofo francês em relação à alquimia e ao empirismo ingênuo, Connor recorda a aversão bachelardiana à própria ideia de que existam coisas simplesmente “dadas” na natureza. Como formulou Bachelard em sua epistemologia histórica, o dado nunca é recebido em sua pureza imediata; ele precisa sempre ser tomado, recortado e construído por meio de uma armadura teórica e instrumental, de modo que aceitar a experiência imediata pelo seu valor de face é a receita certa para o erro.
A intuição bachelardiana ganha contornos ainda mais urgentes diante do fetiche moderno em torno do conceito de dado. Na cultura digital, convencionou-se propagar a fantasia de que imensas massas de informação numérica seriam neutras, desprovidas de pressupostos conceituais e capazes de “falar por si mesmas”. Essa mística do dado bruto reedita, sob jargão tecnológico, a mesma atitude pré-científica criticada por Bachelard: ignora-se que cada medição, métrica ou tabela é o resultado tardio de uma decisão teórica prévia, de instrumentos calibrados e de convenções interpretativas. Nada é espontâneo; o dado é sempre um construto.
Ao denunciar a ilusão do fato bruto, a epistemologia de Bachelard não propõe um recuo em direção ao ceticismo estéril, mas exige a coragem da retificação constante. Conhecer cientificamente não consiste em acumular percepções sensíveis ou tabelar grandezas inertes, mas em operar uma ruptura deliberada contra a familiaridade das primeiras impressões. Contra a comodidade de um mundo presumidamente óbvio, a razão científica afirma-se como um trabalho de permanente desconstrução e reconstrução, lembrando que a clareza teórica não é um dom concedido pela natureza, mas uma conquista laboriosa contra os nossos próprios preconceitos.
Interlocuções
A crítica bachelardiana à passividade do dado e à ingenuidade empírica articula-se com debates centrais da teoria do conhecimento:
- A crítica do mito do dado em Wilfrid Sellars: Em Empirismo e Filosofia da Mente, Sellars demonstra que as impressões sensoriais imediatas não podem fundar legitimamente o conhecimento sem a mediação de conceitos. Nada que seja meramente “dado” na percepção possui autoridade epistêmica por si só; todo saber opera dentro do “espaço lógico das razões”, onde afirmações precisam ser justificadas e contrastadas.
- A fenomenotécnica e a construção de fatos em Bruno Latour: Na sociologia da ciência e nos estudos de laboratório, Latour desenvolve a noção bachelardiana de fenomenotécnica: os fenômenos científicos não são descobertos em estado selvagem, mas produzidos e estabilizados por montagens técnicas e laboratoriais complexas. O “dado científico” é o resultado final da mediação de redes materiais e humanas, e não o seu ponto de partida passivo.
- A ruptura com as pré-noções em Émile Durkheim: Em As Regras do Método Sociológico, Durkheim estabelece que a ciência social deve tratar os fatos sociais rompendo metodologicamente com as pré-noções do senso comum. Essa exigência sociológica ecoa a tese bachelardiana de que a familiaridade cotidiana com os objetos mascara a sua verdadeira dinâmica relacional.
- A crítica ao solucionismo orientado a dados em Evgeny Morozov: Morozov diagnostica a ideologia tecnocrática que enxerga o big data como panaceia neutra para conflitos sociais e políticos. A insistência bachelardiana de que o dado é sempre interpretado e fabricado desmascara a pretensa neutralidade dos algoritmos, revelando as opções políticas e normativas embutidas na própria arquitetura da coleta de dados.
Referências
- Podcast: Hermitix
- Episódio: Gaston Bachelard: An Intellectual Biography with Steven Connor
- Debatedores: James Ellis e Steven Connor
- Snippet de Áudio: 🎧 Bachelard Distrusted Experience and the Idea of the Given (30:53 – 32:21)
- Página do Episódio: Hermitix (Spotify for Podcasters)