O prestígio da predação aberta no realismo capitalista

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Até pouco tempo atrás, o flagrante de uma figura pública enriquecendo às custas da ruína financeira de seus próprios seguidores selaria sua condenação moral imediata. Nas redes digitais, essa dinâmica perdeu eficácia. A exposição nua de práticas predatórias — a exemplo da promoção ostensiva de plataformas de apostas compulsivas e cassinos virtuais — já não derruba influenciadores; com frequência, desperta uma curiosa admiração pela ousadia com que dobram as regras do jogo.

No podcast Calma Urgente, Alessandra Orofino e Bruno Torturra analisaram essa virada a partir do diagnóstico de Mark Fisher sobre o “realismo capitalista”. Para os debatedores, o ambiente neoliberal consumiu o verniz hipócrita que antes forçava a exploração a se justificar sob mantos de utilidade pública ou respeitabilidade. Instaurou-se, em contrapartida, um escudo protetor contra o desgaste de levar valores a sério. Manter qualquer escrúpulo deontológico — a começar pelo imperativo básico de não lucrar sobre o prejuízo alheio — passou a soar como ingenuidade custosa, punida com desvantagem competitiva.

A consequência prática é a conversão do cinismo em virtude tática. Desprovido de constrangimento simbólico, o influenciador que exibe sua monetização predatória é acolhido com condescendência por uma audiência acostumada a enxergar o parasitismo como sinal de inteligência pragmática. A desfaçatez assume ares de lucidez: se a ordem econômica é implacável, quem explora abertamente seus pares estaria apenas demonstrando que entendeu as regras materiais da sobrevivência.

Interlocuções

  • O cinismo como ideologia em Slavoj Žižek: Em O Sublime Objeto da Ideologia, Žižek demonstra que a ideologia contemporânea não se sustenta mais na falsa consciência clássica (“eles não sabem, mas fazem”), e sim no cinismo esclarecido (“eles sabem perfeitamente o que estão fazendo, mas continuam a fazê-lo”). A distância irônica e a confissão pública da exploração atuam como o mecanismo central que mantém o sistema funcionando sem atrito moral.
  • O desnudamento das relações sociais em Karl Marx: No Manifesto Comunista, Marx assinala como a dinâmica do capital desfez as ilusões sentimentais e religiosas que velavam a dominação social, substituindo a exploração encoberta pela exploração “aberta, desavergonhada, direta e brutal”. A naturalização do ganho predatório nas plataformas digitais atualiza esse movimento de desmistificação crua da mercadoria.
  • A governamentalidade neoliberal em Pierre Dardot e Christian Laval: Em A Nova Razão do Mundo, os autores mostram como o neoliberalismo transforma cada indivíduo em uma empresa que deve gerir seus relacionamentos sob a ótica estrita do rendimento. Sob essa grade normativa, a conduta predatória deixa de ser julgada como desvio moral e passa a ser assimilada como eficácia competitiva.
  • A impotência reflexiva em Mark Fisher: Em Realismo Capitalista, Fisher caracteriza a postura do sujeito contemporâneo pela consciência aguda dos males do capitalismo acompanhada pela convicção paralisante de que não há alternativa viável. O cinismo torna-se, assim, a armadura defensiva necessária para navegar um ambiente socioeconômico em que qualquer idealismo é punido com o fracasso.

Referências