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A filosofia ocidental operou durante séculos sob a presunção de que a comunicação e a linguagem seriam prerrogativas exclusivas da espécie humana, reservando à natureza o papel passivo de matéria bruta e silenciosa. Nessa partilha tradicional, os homens falam entre si enquanto o mundo físico apenas aguarda ser medido, explorado ou representado. Ao cruzar a termodinâmica com a cibernética nascente, contudo, o pensador francês Michel Serres propôs uma reviravolta ontológica: a circulação de informação não é um artifício cultural tardio, mas o princípio estruturante de qualquer organização na escala cósmica.
Essa virada cosmológica foi esmiuçada pelo filósofo da ciência Massimiliano Simons no podcast Hermitix, em discussão dedicada à obra A Lenda dos Anjos, de Michel Serres. Conforme aponta Simons, Serres parte da definição física de informação como negentropia — isto é, a medida da improbabilidade de um arranjo material perante a tendência entrópica do universo ao caos e à dissolução. Sob essa ótica, o código genético gravado no DNA, a auto-organização celular, os ecossistemas florestais e até os ciclos gravitacionais dos sistemas solares são depósitos e transmissores contínuos de informação, constituindo ilhas improváveis de ordem mantidas por trocas incessantes de sinais.
A consequência dessa abordagem é o colapso do antropocentrismo linguístico. Se cada elemento natural emite, intercepta e transforma mensagens para sustentar sua própria coesão, a comunicação deixa de ser um privilégio social e passa a designar o modo de operação do real. O ser humano não é o inventor da linguagem, mas apenas um participante recém-chegado em uma conversação cósmica plurimilenar, cercado por mensageiros materiais que já dialogavam muito antes de o primeiro conceito ser pronunciado.
Interlocuções
- A cibernética e a negentropia em Norbert Wiener: Em Cibernética e Sociedade, Wiener postula que a informação é a medida de ordem que se contrapõe à degradação entrópica natural do cosmos. Serres expande essa tese para fundamentar uma cosmologia em que a matéria viva e inorgânica opera como resistência ativa à desordem termodinâmica.
- A individuação e a modulação informacional em Gilbert Simondon: Na reflexão simondoniana sobre a técnica e a física, a gênese dos seres é descrita como uma operação de troca de informação entre potenciais energéticos pré-individuais, recusando a separação aristotélica entre matéria inerte e forma pura.
- A mediação e a agência dos não humanos em Bruno Latour: Profundamente devedor de Serres, Latour desconstrói a divisão moderna entre sujeitos falantes e objetos mudos na Teoria Ator-Rede, concedendo aos actantes materiais a capacidade plena de mediar, traduzir e transformar as relações coletivas.
- A biossemiótica e a teia de signos em Jesper Hoffmeyer: Ao aproximar a biologia molecular da semiótica de Charles Sanders Peirce, a biossemiótica confirma o horizonte serresiano ao demonstrar que a própria vida celular é tecida por processos sígnicos, reconhecimento de sinais e interpretação contextual ininterrupta.
Referências
- Podcast: Hermitix
- Episódio: Angels: A Modern Myth with Massimiliano Simons – The Michel Serres Project
- Debatedores: Massimiliano Simons e James Ellis
- Snippet de Áudio: 🎧 The World Is an Exchange of Messages (18:09 – 19:36)
- Página do Episódio: Hermitix (Spotify for Podcasters)